Porque desenhistas se perdem no ofício: A verdade por trás dessa aventura

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Desde que comecei a me aventurar no ofício de desenhista, notei um padrão curioso — e até doloroso. Há pessoas que permanecem e florescem no desenho, encontrando nele um caminho de vida. Mas existe também um número enorme de desenhistas, alguns até brilhantes, que simplesmente se perdem. Alguns por conflitos internos, outros por desmotivação profunda, e há ainda quem faça propaganda ativa para que ninguém siga esse caminho. E, claro, a justificativa mais comum para abandonar a jornada é sempre a mesma: a falta de resultados.

Com o tempo, comecei a me perguntar… Se estamos todos na mesma empreitada, por que até os talentosos não estão tendo bons resultados? Aos poucos, observando o mercado se transformar — de perto e ao longo de muitos anos — percebi algo importante: nunca estivemos seguindo os mesmos parâmetros. E foi através dessa percepção, junto da minha natureza observadora, que passei a estudar o assunto com mais profundidade. Tanto como professor de desenho quanto como aventureiro da arte.

O que você vai ler a seguir é fruto dessas reflexões. Inclusive, parte desse conteúdo acabou rendendo capítulos inteiros do meu livro “Desenhista: Como Ganhar Dinheiro com Seu Talento”. Então vamos começar entendendo algo fundamental:

Como o caminho se inicia

A jornada costuma começar lá atrás, quando ainda somos crianças. Nessa fase, pais e familiares geralmente elogiam qualquer traço que fazemos — algo que, mesmo de forma ingênua, estimula profundamente o desejo de continuar desenhando. Às vezes compram materiais, comentam com orgulho, guardam os desenhos… e isso já é o suficiente para acender uma chama.

Mas existe também um grupo de pais que não incentiva muito, seja por falta de afinidade com arte, falta de tempo ou até por achar que desenho “não dá futuro”. A questão é que, independentemente do incentivo externo, chega uma fase — antes ou durante a adolescência — em que o autojulgamento aparece. É quando o jovem começa a perceber se desenha realmente bem ou se tudo não passava de elogios carinhosos.

Nesse momento surgem três grupos:

  1. Quem percebe que possui habilidade acima da média
  2. Quem tem alguma noção e quer melhorar
  3. Quem acredita não ter aptidão e abandona

É sobre os dois primeiros que falamos aqui: aqueles que seguem desenhando seja como hobby, seja visando uma profissão futura — como autodidatas ou fazendo cursos para acelerar o aprendizado.

Autodidatas vs. Alunos

O autodidata aprende no tempo dele. Pesquisa, testa, erra, progride. Mas é ao conversar com outros profissionais, ler livros, acompanhar matérias e conteúdos que sua mente realmente se abre para novas realidades do mercado.

Já o aluno de curso segue uma trilha mais organizada. Recebe orientação, aprende técnicas com lógica e constrói uma visão conforme o ponto de vista do professor. Ambas as jornadas são válidas. Ambas funcionam. Mas nenhuma delas prepara totalmente para os obstáculos invisíveis que surgem depois.

Os primeiros obstáculos

Alguns obstáculos são claros e até fáceis de identificar: falta de tempo, dificuldade técnica, ausência de incentivo, materiais caros. Mas há também os obstáculos invisíveis, ligados à personalidade, mentalidade e capacidade emocional do desenhista — e esses só podem ser percebidos com autorreflexão ou com feedback honesto de outras pessoas.

Vamos destrinchar alguns deles:

1. Incentivo da família (na medida certa!)

O apoio familiar pode ser uma bênção. Mas existe um ponto perigoso: quando a família faz tudo pelo desenhista. Quando isso acontece, o jovem não desenvolve autonomia. E a autonomia é indispensável para viver de arte.

Exemplo:
O filho sonha em trabalhar com desenho, mas nunca divulga nada, nunca busca clientes, nunca se candidata a vagas. Os pais fazem tudo por ele — montam currículo, enviam e-mails, buscam oportunidades.

Assim, o jovem cresce sem desenvolver a parte mais importante da carreira: a atitude.

É preciso que a família estimule, apoie, mas permita que o próprio desenhista faça o esforço necessário para caminhar.

2. Busca pelo conhecimento

Não basta desenhar bem. É preciso estudar constantemente — não apenas técnica, mas também processo, mercado, produção, humanidade, criatividade. O desenhista que não se atualiza se torna facilmente ultrapassado, mesmo sendo talentoso.

Há quem faça cursos. Há quem aprenda sozinho. Mas o ponto crucial é: quem não estuda, não evolui. É estudando inclusive que você passa a saber que existem também uma série de possiblidades de trabalho relacionadas. Por exemplo, existem mais de 30 áreas ligadas a desenho; e muitas vezes o desenhista não vai estar satisfeito em uma, mas estará em outra. Mas só terá clareza se souber o que realmente é cada uma e realmente gosta e faz bem feito, se tiver saída é claro, pois resultado depende de demanda. É importantíssimo saber isso.

Dentre as profissões podemos citar: caricaturista, tatuador, cartunista, quadrinista, artista plástico, arquiteto, maquetista, etc.

3. Saber vender (o divisor de águas)

Essa é a parte mais negligenciada, e a mais determinante.

Depois que o desenhista desenvolve uma técnica minimamente sólida, ele precisa aprender a vender. Não apenas vender arte, mas vender a si mesmo: seu estilo, seu processo, sua confiabilidade.

Se não souber vender:

  • não saberá para quem apresentar seu trabalho,
  • não saberá como se posicionar,
  • não saberá como falar numa entrevista,
  • não conseguirá abrir portas.

É por isso que muitos desenhistas excelentes acabam ficando pelo caminho. Já aqueles com técnica mediana, mas boa comunicação, muitas vezes prosperam.

Essa é a verdade crua do mercado.

Se o desenhista decide trabalhar como autônomo, empreendedor da própria arte, a necessidade é ainda maior. Ele precisa conhecer o mínimo de estratégia, público-alvo, precificação e marketing. Caso contrário, se perderá entre milhares de artistas anônimos.

Daí vem a frase que muitos não gostam, mas que é real:

Nem todo desenhista foi feito para o caminho do autônomo. Alguns se dão muito melhor em empregos fixos, com rotina, estabilidade e direção clara.

Marketing e Publicidade: o que ninguém te conta

No mundo atual, a arte não se sustenta apenas pela qualidade técnica. O fator determinante é visibilidade. E visibilidade não cai no colo de ninguém. Ela é construída com:

  • conteúdo estratégico,
  • presença digital,
  • redes sociais,
  • networking,
  • consistência em aparecer.

Desenhistas talentosos se perdem porque acreditam que “a arte fala por si”. No século XXI, ela não fala. Ela precisa ser mostrada, explicada, divulgada, compartilhada; e cada vez mais é preciso estar antenado nas novidades do mundo online e das novidades em geral, pois o mundo muda cada vez mais rápido.

Os obstáculos velados

Agora entramos nas barreiras mais profundas, aquelas que ninguém vê, mas que destroem carreiras inteiras.

Choque de realidade

Muitos desenhistas começam com uma visão romântica da profissão. Acham que vão passar o dia desenhando coisas que amam, sendo reconhecidos e vivendo de criatividade.

A realidade é outra:

  • prazos apertados,
  • revisões,
  • clientes exigentes,
  • trabalhos pouco inspiradores,
  • cansaço mental,
  • pressão financeira.

Quando o choque vem, alguns desistentes interpretam isso como “falta de talento”, quando na verdade era apenas falta de preparo psicológico.

O lugar onde se vive

O ambiente influencia, muito. Morar em uma região com pouco mercado, poucas oportunidades, baixa valorização da arte… tudo isso afeta diretamente o caminho.

Mas é aqui que entra o diferencial do desenhista moderno:
A internet abriu o mundo inteiro.
Quem aprende a trabalhar online não depende da geografia para prosperar.

O mercado

O mercado não é cruel. Ele é apenas competitivo. E exige adaptação. O desenhista que ignora tendências, tecnologias e transformações ficam para trás rapidamente.

O método

Por fim, muitos se perdem porque simplesmente não têm um método. Desenham de forma aleatória, sem plano, sem metas, sem organização. A arte, apesar de criativa, precisa de disciplina, e claro, de estratégia, pois também é um negócio que requer sempre adaptação e resultados. Mas é preciso concentrar nas soluções e deixar a reclamação de lado, pois o ponto fraco de muitos é se concentrar na reclamação e ficar estático num modelo de trabalho.

Cuidado inclusive para não querer imitar 100% seu ídolo, pois a realidade dele e o potencial dele não é igual ao seu. Daí a necessidade de você se adaptar ao mercado e escrever a sua própria história, usando o potencial seu que é útil aos demais, que é procurado pelas pessoas. Mas você precisa aparecer, desenhar, se mostrar.

Se o desenhista não aceita essa realidade, ele se perde.
Se aceita e se adapta, ele cresce.

Essa é a verdade por trás dessa aventura chamada desenho.

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