Um pensamento Vinciano para resolver boa parte dos problemas dos Desenhistas

Existe um pensamento de Leonardo da Vinci, o renascentista, que guarda um valor muito importante, e que com certeza resolveria uma série de problemas atuais de nós desenhistas, ou melhor, de grande parte da nossa sociedade. Ele tem como tônica, a sofisticação, e que com certeza tem tudo para ser a porta de solução para muitos problemas. Mas antes de tentarmos entender esse valor que Leonardo se referia, vamos falar brevemente de como a sofisticação tem sido vista hoje.

Há quem encare a sofisticação mais pelo lado das aparências, seja buscando estar na moda, por demonstrar usar coisas de última geração, por usar produtos de marca, andar de carro do ano, entre outras; mas para outros soa mais como buscar fazer aquilo que enriquece nossa experiência ao fazer as coisas com mais requinte e objetividade. O fato é que no final das contas não há um extremo ou outro, mas uma mistura, e o que varia é que uns vão mais para a simplicidade enquanto outros caminham mais para a complexibilidade. Tais comportamentos em si não são um problema, mas sim a mentalidade errônea empregada.

É aí que se torna propícia a máxima de Leonardo a qual me refiro:

 

“A simplicidade é o último grau de sofisticação.”

 

Já tive um seguidor que ao se deparar com este pensamento me questionou o seguinte “Como pode Leonardo dizer uma coisa dessas, justo ele que era tão complexo!”; mas, pelo que eu vejo perante a vida desse renascentista é que não é bem por aí o conceito que Leonardo seguia, tão pouco queria pregar. De fato ele atuava em muitas atividades e fazia suas obras com grande requinte, resultado de sua inteligência que o fazia se interessar por praticamente tudo para desvendar o mundo. Com isso ele chegava na essência das coisas mais rapidamente, pois as leis e princípios que regem cada atividade são as mesmas, uma mentalidade que inclusive o fez se destacar tanto nas atividades pela qual desempenhou durante a vida, e não foram poucas. Leonardo evitava gastar seu tempo com empreendimentos fúteis, e provavelmente seja por isso que tenha deixado tantas contribuições para nossa sociedade, seja ao dedicar-se com grande empenho como pintor, escultor, arquiteto, engenheiro, matemático, fisiólogo, químico, botânico, geólogo, cartógrafo, físico, mecânico, inventor, anatomista, escritor, poeta e músico. Já nós, muitas vezes damos voltas e voltas sobre os mesmos assuntos, e passamos anos e anos apanhando dos mesmos problemas. Sendo assim, digo que a sofisticação que ele se referia era algo mais profundo, que se fizermos as coisas da maneira mais simples possível, atingiremos um alto grau de sofisticação devido a uma alta objetividade e requinte, fazendo-nos despir das inúmeras complicações que tendemos a criar e assim aproveitarmos melhor o nosso tempo. Essa complexibilidade que alguns enxergam em Leonardo, talvez fosse melhor definida como “filósofo”, pois ele tinha uma incessante busca pelo saber. Inclusive há palavras de um rei de seu século que também retratam isso, as do rei Francisco:

Nunca nasceu no mundo outro homem que soubesse tanto quanto Leonardo, nem tanto por seus conhecimentos de pintura, escultura e arquitetura, mas por ele ter sido um grande filósofo.”

 

E o que essa sofisticação tem a ver com os desenhistas?

Tudo, pois sermos sofisticados acelera nosso aprendizado.

A começar pela aquisição de materiais. Sim, muitos desenhistas iniciantes tendem a complicar o processo de aprendizado ao focar mais na aquisição de bons materiais e na pesquisa das melhores marcas; enquanto que a teoria e a prática que são os mais importantes acabam tendo uma atenção reduzida. Sim os materiais de desenho são importantes, mas é necessário cuidado para não montar um invejável arsenal de materiais e livros importados, e se esquecer do essencial, desenvolver o seu talento treinando. Fazendo uma analogia para melhor entender, seria quase a mesma coisa que comprar uma Ferrari para andar na terra; pois você aproveitará pouco do que o material pode oferecer. Mas há casos que realmente exige um material mais refinado; afinal, cada caso é um caso; basta usarmos o famoso bom senso para não cairmos em excessos.

Nas aulas de desenho também é comum que alguns desenhistas iniciantes reclamem de exercícios onde o professor os pede para desenhar repetidamente uma série de formas simples, tais como: quadrados, triângulos, retângulos. Na cabeça dessa turma, isso é muito simples, pois a expectativa era o professor passar uma técnica extraordinária e complexa, tipo aquelas comentadas serem vindas de um lendário mestre japonês. Mas em muitos casos, o professor pode estar instigando o desenhista a melhorar sua coordenação, pois os movimentos para desenhar tais formas, ainda que aparentemente simples, se revelam na prática como grandes desafios, pois não é qualquer pessoa que tem uma boa coordenação fina, a ponto de desenhar as figuras com grande habilidade e precisão. Nesse sentido há inclusive a visão periférica que pode ser desenvolvida junto com a coordenação. Mesmo quem é um desenhista experiente tem dificuldade em fazer seguidamente um circulo bem redondo, ou um quadrado no esquadro. São treinos aparentemente simples, mas que são para desenvolver por toda uma vida, pois depende mais de nos lapidarmos por dentro.

Lembro ainda de um escultor da minha região que fazia algumas estecas com pedaços de arame, um artifício que com certeza seria motivo de chacota na opinião dos artistas mais “formais”. Sim, ele tem dinheiro para comprar estecas, mas sua simplicidade não o deixa paralisado quando lhe falta uma ferramenta específica, se ele vê uma solução rápida, sabe se virar com pouca coisa. O mesmo valor também seria destaque em quem não tem dinheiro mas dá um jeitinho com seu criativo improviso.

 

Um outro exemplo de sofisticação?

Dar um presente para uma jovem criança é um bom exemplo. Suponhamos que você vá a uma loja e pague caro por um brinquedo barulhento, que no fundo é irritante e sem graça; mas só comprou porque passou no comercial da TV, parece bonito e gera uma boa aparência para quem ver seu gesto fraterno ao presentear a criança. Eis então que você se depara com aquela surpresa, a criança está mais interessada em brincar com um litro de garrafa pet, do que o brinquedo caro que você comprou. Daí você diz: “Ah! É porque ela não sabe do valor!”; mas e daí, você não foi objetivo e comprometido com a criança, sua complexibilidade de pensamento e vaidade o fez escolher um presente que não bate com as necessidades dela.

Nesse caso você seria mais sofisticado e objetivo se mergulhasse no mundo dela e desse um presente mais útil, ainda que fosse para desenvolver a curiosidade dela. Podemos até pensar: “O que vale é a intenção!”, mas se formos sinceros, em muitos casos, nosso medo em decepcionar a família acaba desvirtuando a própria intenção; ou seja, não era uma intenção genuína. O simples é trocado pelo complexo porque cedemos pelo jogo de aparências, e o agrado a criança ficaria nesse caso em segundo plano.

 

Conclusão

Ser sofisticado pode exigir muito ou pouco de nós; mas há que nos qualificar para sermos cada vez mais simples, e consequentemente mais objetivos. A simplicidade é realmente o último grau de sofisticação!

 

Sobre o Autor

Um curioso aspirante da filosofia que curte aprender um pouco de tudo, seja de ciência, arte, religião ou filosofia. Artista Plástico, Designer Gráfico e Blogueiro há quase 7 anos.

http://www.desenhoonline.com

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