Flávio Calazans em entrevista exclusiva ao blog desenhoonline.com

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Flávio Calazans

Nesta nova entrevista iremos trazer um desenhista multitarefa e grande entusiasta dos quadrinhos, Flávio Calazans. Ele é Doutor pela ECA USP, e responsável por publicar quadrinhos como tiras de jornal, seja em revistas como “Brazilian Heavy Metal”, na Editora Abril, em ábuns (Graphic Novels) como “Guerra das Ideias”, “Guerra dos Golfinhos”, “A Hora da Horta” e outros.

Foi ainda eleito Diretor Executivo da AQC, em 1987, onde escreveu e publicou a “CARTILHA DE DIREITO AUTORAL DA AQC”, o primeiro livro sobre Direito autoral específico dos Quadrinhos do BRASIL publicado e distribuído pela Associação dos Quadrinistas e Caricaturistas de São Paulo (AQC-SP), onde prestou CONSULTORIA de DIREITO AUTORAL .

Fundou e coordenou o Grupo de Trabalho “Humor e Quadrinhos” no Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, de 1995 a 2000. Escreveu e publicou diversos livros sobre quadrinhos, mensagem subliminar; e inclusive neste último tema, deu origem ao primeiro livro sobre subliminares no idioma português, adaptado de suas teses de mestrado e de doutorado na ECA USP, “Propaganda Subliminar Multimídia” em SÉTIMA edição ampliada pela Summus Editorial

Vamos então à entrevista!

 

Desenho Online – Nome completo, idade, hobbie e ocupações.

Calazans – Flávio Mário de Alcântara CALAZANS, 56 anos, como hobbie leio muitos livros e gibis (Histórias em Quadrinhos ou HQ), escrevo e desenho quadrinhos, também acompanho séries de TV e assisto muitos filmes de cinema; mantenho o site www.calazans.ppg.br e o blog “calazans zans zans“, no qual escrevo artigos sobre series de televisão, cinema, literatura, arte contemporânea, publicidade e quadrinhos.

Contudo, eu também pratico jardinagem, mas só os amigos muito próximos sabem disto. Faço palestras e workshops de temas de marketing e publicidade. Também efetuo PERÍCIA JUDICIAL e casos de DEFESA DO CONSUMIDOR. Sofro de um problema de INSÔNIA CRÔNICA e somente consigo dormir duas a três horas por noite, deve ser um problema atávico ou congênito pois quase todos meus primos sofrem de insônia igual! Assim eu preciso ocupar das 21 às 22 horas acordado em claro, por isso parece que faço muitas coisas, na verdade eu preferia estar dormindo oito a dez horas por noite e sonhando, invejo MUITO a minha esposa que dorme pesado quando quer!

Minha auto caricatura ilustra meus hobbies e o apelido de POLVO por fazer muitas coisas simultaneamente:

Flávio Calazans - Autocaricatura

E este é um avatar meu o qual desenhei direto no computador.

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Aqui um exemplo de poesia que também brinco de fazer – ORGULHO, poema tri-lingue.

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Tenho uma biblioteca de cerca de dois mil livros (já tive cinco mil e todos lidos, mas o cupim tomou quase tudo de mim), leio muita literatura, de Tolstói a Victor Hugo, de Júlio Verne a H. G. Wells, de Moacyr Scliar a Rimbaud.

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Também assisto muitas séries de TV e Netflix, minhas preferidas são “Jornada nas Estrelas” e “Balylon 5” além das do Joss Whedon “Firefly” e “Dollhouse”. Esta semana estou assistindo “WESTWORLD” a serie da HBO, deles também acompanho “Game of Thrones”. Das séries canadenses curto “LOST GIRL”, mas minhas preferidas foram “CONTINUUM” e “BLOOD TIES”.

Coleciono DVDS de filmes de Akira Kurosawa a Alfred Hitchcock, Tim Burton a Guilherme del Toro, de Terry Gillian a todos filmes do Monty Pithon, dos japoneses curto muito os clássicos como Osamu Tezuka – tenho completas as séries “KIMBA o leão branco” e “A princesa e o cavaleiro”, gostei muito do animé e dos dois filmes live-action do “GANTZ”.

Também coleciono músicas, de Raul Seixas a Mozart, de Arrigo Barnabé a Vivaldi, de Itamar Assupção a Chopin, de Paulinho Moska a Wagner (no meu berço tinha um toca música com o Minueto em Sol Menor, o “Fur Elise”, de Beethoven, cresci ouvindo música clássica).

Meu toque de celular é “Je Ne Regrette Rien” da Piaf. E como fundo sonoro ao ler esta entrevista sugiro estar ouvindo a cavalaria da Ópera “Guilherme Tell” de Rossini ou “RÊVERIE” de Debussy.

E, obviamente, coleciono gibis e álbuns capa dura de Historias em Quadrinhos.

 

Desenho Online – Você sempre gostou de histórias em quadrinhos? Conte-nos como nasceu o seu gosto pelas HQ’s.

Calazans – Aos quatro anos de idade, minha família levou-me de férias à cidade de POÇOS DE CALDAS; e como contam que estranhei muito o “Hotel Quisisana”, compraram um gibi para distrair-me, era FLECHA LIGEIRA número 86, 1966, da Rio Gráfica e Editora, desenhado por um brasileiro, o José Evaldo de Oliveira. Esta foi a primeira História em Quadrinhos com a qual tive contato, um faroeste onde o protagonista é um índio, ao contrário da maioria onde no máximo o índio era coadjuvante como Tonto e Zorro (The Lone Ranger) ou, na maioria, era o inimigo e vilão.

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Segundo contavam meus pais, a partir desta revista, lida e relida para mim incontáveis vezes, passei a desenhar histórias em imagens seqüenciadas e pedia que escrevessem as falas e balões nestes desenhos.

Passei a ser assíduo leitor de gibis, e por decorrência disto, colecionador até hoje. Minha mãe, professora, alfabetizou-me com os álbuns de ASTERIX e TITIN, ensinando-me junto História e Geografia, lia Tintin com um mapa mundi ao lado incentivando minha curiosidade para estudar os países; também me levavam ao cinema, comentando que o filme se passava em um país que Tintin visitou, e na volta do cinema reliam o álbum para mim comentando o filme e o quadrinho. Isto desde os meus quatro anos de idade.

Influenciado por meu pai passei a ganhar dele gibis do POPEYE e TARZAN junto aos faroestes, Disney foi algo que conheci somente bem depois, meu primeiro contato com narrativas em quadrinhos foi com este material que não era dirigido ao público infantil.

Logo também chegaram a minhas mãos os super heróis de Batman e Superman, Gavião Negro e Shayera, Elektron, Flash, Lanterna Verde, etc., e em 1968, veio Hulk , Namor, Thor, Homem de Ferro e todos os heróis que meu pai ganhava nas revistas EBAL ao abastecer seu carro, um “Simca Chambord”, nos postos Shell, juntando aos desenhos animados deles que eu assistia na televisão.

Com esta exposição dirigida aos quadrinhos e cinema, posteriormente estudei idiomas e formei-me “TRADUTOR-INTÉRPRETE” para poder ler no original os álbuns franceses como ASTERIX, TINTIN, VALERIAN, VAGABUNDO DOS LIMBOS, BARBARELLA, JODELLE, SAGA DE XAM, etc..

Seguiu-se a revista GRILO em 1972 e nela logo vieram os UNDERGROUND como ROBERT CRUMB, RICHARD CORBEN, junto a WOLINSKI, PICHARD, CREPAX, e depois conheci VAUNGH BODÉ, etc..

Logo depois conheci a revista GIBI com seus especiais de Nostalgia como SPIRIT de WILL EISNER, com LITTLE NEMO, KRAZY CAT, ALL CAP, BRUCUTU, PRÍNCIPE VALENTE (eu já conhecia o TARZAN de Harold Foster em um álbum que ganhei do meu pai), etc..

E em 1977 surge na França a revista METAL HURLAT com um tipo de quadrinho autoral e livre com autores como CAZA, DRUILLET, MOEBIUS, o Alan VOSS e o brasileiro SÉRGIO MACEDO que eu já conhecia da GRILO.

Organizei um grupo de colegas no colegial e conseguimos emprestado um mimeógrafo a álcool (era Ditadura Militar e publicar era algo perigoso e subversivo) e juntos publicamos um jornal, BARATA, que cresceu e virou uma cooperativa publicando em off set por VINTE ANOS a REVISTA BARATA, de 1979 ao ano 2000. Veiculei ali meus quadrinhos e charges políticas, artigos, contos, crônicas, poemas e obras de dúzias de outros autores. Seguíamos o modelo da ZAP COMIX de Crumb e da METAL HURLANT, ambas produzidas por grupos de autores.

BARATA estava dando visibilidade a minha obra, vendida de mão em mão em universidades locais e em bancas de jornal como a da rodoviária, e já em 1980 publiquei tiras (Strip Comics) no “Jornal de Mesa” de Santos, impresso no formato de toalha de mesa de papel e distribuído nos bares e lanchonetes, depois fiz por anos as tiras com meu personagem TATUÍ no jornal “Correio de Bertioga” defendendo a ecologia e apoiando o plebiscito que depois elevou Bertioga a cidade, pois Bertioga era subdistrito de Santos. Seguiram-se outros jornais como CORREIO DE PRAIA GRANDE, BOÊMIO de Matão, Folha Universitária e muitos outros.

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Numa revista de literatura da editora Brasilliense li uma carta de Adrovando Claro de Oliveira falando da revista MATURI, de Natal, Rio Grande do Norte; Maturi é uma palavra potiguar a qual significa Caju Verde. A revista Maturi Mirin tinha o formato de cordel e era impressa em offset com tiragem enorme, de fazer inveja a editoras da grande São Paulo. Maturi era impressa em papel colorido, preto sobre fundo verde, vermelho, azul, etc.. Na Maturi publiquei minha primeira história em quadrinhos fora do estado de São Paulo, tenho muito carinho por esta revista desde sua proposta até o projeto gráfico.

Também fiz charge política contra a ditadura militar no “jornal do Centro dos estudantes de Santos” e no jornal de escola secundarista impresso a mimeografado a álcool “BARATA” (que depois virou revista e editamos por 20 anos em cooperativa); mas a charge dura muito pouco e é descartável, efêmera, perde o sentido logo…

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Então depois fiz tiras do “TATUÍ” no jornal semanal Correio de Bertioga por anos, engajado na separação de Bertioga de Santos e sua autonomia como cidade, como vencemos e a mensagem ecológica tinha se esgotado parei de fazer pois iria ser repetitivo comigo mesmo e isto não admito como autor.

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“Tatuí” era super lido aqui em Bertioga e as pessoas me paravam em lanchonete e pediam autógrafo, era tirinha (strip comics) de jornal e teve um impacto incrível, colaborou conscientizando os moradores a votarem no plebiscito para Bertioga ser um município autônomo livre e deixar de ser bairro de Santos… e olhe bem, “Tatuí” era a obra que mais teve repercussão de público e era a que me dava menos prazer de fazer, pois a tira era muito limitada, e o jornal semanal dificulta fazer serie de tiras continuando um tema, fiz algumas vezes e o leitor esquece ou não leu o jornal anterior. Acho que tira tem muita limitação ao meu ver e para meu estilo. Ganhava dois dólares por tira e vendia lotes de dez tiras.Nunca fiz quadrinhos pelo dinheiro, como disse Jodorowsky, ele faz cinema para PERDER o dinheiro que ganha nos álbuns de quadrinhos que roteiriza, faz por um impulso, faz por amor à arte. Identifiquei-me muito com esta entrevista dele que ela fala pelado sentado na biblioteca como metáfora do autor desnudar-se em sua obra!

Gosto do desafio de fazer HQ curta de duas páginas (como fiz no álbum “GUERRA DAS IDEIAS” e em centenas de outras hqs curtinhas) mas um roteiro só pode ser desenvolvido com tempo e espaço (como meu álbum “GUERRA DOS GOLFINHOS”), estes dois álbuns são chamados pela crítica de Banda desenhada da Europa como “AS GUERRAS CALAZANISTAS” .

 

Desenho Online – Como grande pesquisador das histórias em quadrinhos, o que poderia nos dizer sobre o mercado nacional; o que vê de positivo e ou negativo no cenário atual?

Calazans – Obrigado, não sou um GRANDE pesquisador, sou apenas mais um pesquisador entre muitos outros dando a contribuição que consigo dentro de minhas limitações, tento fazer o meu melhor e dar o máximo de mim em cada projeto que desenvolvo pois assim é a minha natureza e meu caráter.

Um pais que não lê não tem mercado nem ambiente para produzir obras com qualidade mínima, sem ler livros não se tem boas peças teatrais, sem a carpintaria dramatúrgica e a construção da narrativa pelo diálogo do teatro, não se pode ter um cinema de qualidade, sem cinema não se tem histórias em quadrinhos… sem frequentar galerias de arte e ler sobre estética (filosofia da arte, a axiologia dos valores do belo – a outra axiologia é dos valores do bom da ética e nisto o sintoma é o numero de corruptos do Brasil e sua imoralidade, sem moral) não se tem artes plásticas.

Já no cinema a inversão de valores da agenda de esquerda enaltece narrativas elogiando o crime (sem o tripé aristotélico, sem o “ethos” e com quase nenhum “logos” sobra um “pathos” desequilibrado nas obras, as quais aliás são feitas sem pesquisa ou planejamento sequer de câmera quanto mais de narrativa, somente com “uma câmera da mão e uma ideia na cabeça” basta comparar os prêmios de filmes do Brasil com os prêmios de Argentina e Chile – nossos vizinhos que leem livros, vão ao teatro e ao cinema (e conte os Nobel deles!) para ter certeza que fazemos tudo errado.

E lógico que as ciências só se desenvolvem com base na Epistemologia ou Filosofia da Ciência e com uma cultura de estudo (livros de novo! Ler é chato nos doutrinou o Lula do PT) ou seja, perca a esperança de ver um Nobel de literatura ou prêmios de cinema por aqui!

Escrevi sobre mercado de quadrinhos um texto bem introdutório ao que penso sobre os ciclos de vendas e as possibilidades de exportação e é fácil de achar on line na Internet.

 

Desenho Online – Como surgiu a ideia de criar a Cartilha de Direito Autoral da AQC? Poderia nos contar algo de especial sobre o projeto?

Calazans – Em 1986 fui eleito diretor executivo da AQC (Associação dos Quadrinhistas e Caricaturistas) e eu tinha sido diplomado por ter completado cinco anos da faculdade de Direito em 1985, como durante todo curso pesquisei Direito autoral das Histórias e Quadrinhos para mina autodefesa, ofereci escrever e publicar uma cartilha que orientasse os desenhistas a como registrar personagem, roteiro, como interpretar cláusulas de contratos, o que é o crime de Plágio e muito mais, servindo à classe e socializando meu conhecimento.

Flávio Calazans - Cartilha de Direito Autoral

A “Cartilha de Direito Autoral da AQC” foi lançada no mesmo ano de 1986 e teve muito sucesso, e como eu ofereci consultoria gratuita por muitos anos acabei acumulando vinte anos de experiências e colecionei contratos e casos dos mais simples aos mais surpreendentes e improváveis, eu mesmo fui vitima de outro quadrinhista que PLAGIOU uma História em Quadrinhos minha.

NÃO GANHEI NEM UM CENTAVO PELO LIVRO COMO NÃO VOU GANHAR POR ESTA SEGUNDA EDIÇÃO, DOEI OS DIREITOS PARA A AQC, até as despesas de correio com as consultorias eu sempre paguei do meu bolso, é importante deixar isto claro devido a mentiras que três quadrinhistas que são professores universitários tem espalhado para denegrir minha obra e minha pessoa.

No ano de 2016 passei OITO meses pesquisando e fazendo entrevistas com autores, editores, advogados, juízes, promotores (Ministério Público) e delegados de polícia para esta SEGUNDA edição ampliada e atualizada da “Cartilha de Direito Autoral da AQC” (cuja primeira edição lancei em 1986 quando fui eleito Diretor executivo da AQC, ela foi o primeiro livro jurídico especializado em Direitos dos Quadrinhos, Caricaturas e Charges publicado no Brasil) – e vi muito absurdo no mercado de quadrinhos incluindo CRIMES previstos no Código Penal e que são frequentemente cometidos contra desenhistas principiantes e até mesmo com veteranos experientes.

Desconhecer as leis e nossos direitos é o primeiro problema, como denunciar na Delegacia de Polícia ou mover processo de indenização é o segundo problema, por estas razões decidi que poderia contribuir por ser formado em Direito e acumulei experiência ao trabalhar publicando profissionalmente quadrinhos em jornais e revistas desde 1980, assim sendo, reescrevi esta cartilha que de 40 páginas na primeira versão subiu para 96 páginas agora, breve a AQC deve lançar este livro, talvez saia ainda neste ano de 2017.

 

Desenho Online – Quando e por que surgiu a ideia de criar o Grupo de Trabalho Humor e Quadrinhos?

Calazans – Dediquei minha carreira acadêmica aos quadrinhos, fui fundador e Coordenador do Grupo de Trabalho “Humor e Quadrinhos” no Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, de 1995 a 2000, o PRIMEIRO grupo de pesquisa de quadrinhos oficial no Congresso de Comunicação INTERCOM, lá eles tinhas grupos onde pesquisadores universitários apresentavam artigos sobre cinema, publicidade, fotojornalismo etc, então eu contei o número de artigos versando sobre quadrinhos espalhados nos 20 grupos temáticos nos últimos três anos e fiz a proposta de criar um GT HQ que a diretoria da Intercom aceitou e o grupo teve muito sucesso na sua época.

Também fui o idealizador e Organizador do livro com pesquisas do GTHQ – Histórias em Quadrinhos no Brasil: Teoria e Prática. São Paulo, INTERCOM/Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, GT Humor e Quadrinhos, 1997. (Coleção GTs INTERCOM, v. 7) (Organizador) ISBN 85-900400-1-1.

Anos de pesquisa depois também escrevi o livro “Histórias em Quadrinhos na Escola” – que está na TERCEIRA edição, pela editora PAULUS São Paulo, ISBN 85-349-2140-7 . PRIMEIRO livro do Brasil sobre o uso de quadrinhos para ensino em escolas, primeira edição foi publicada em 2005.

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Mas também escrevi o primeiro livro sobre subliminares em idioma português, adaptado de minhas teses de mestrado e de doutorado na ECA USP, “Propaganda Subliminar Multimídia” em SÉTIMA edição ampliada pela Summus Editorial. Com inúmeros exemplos de subliminares nos quadrinhos baseado em textos de Will Eisner e Alan Moore.

 

Desenho Online – Dos Quadrinhos que publicou, qual é o seu preferido e porquê?

Calazans – Gosto dos personagens “POETA DOS PARADOXOS” e “TYLI TYLI”, eles tomam a narrativa de mim e se desenvolvem sozinhos interferindo nas narrativas e desenvolvendo-se sem meu planejamento, de forma inconsciente como na escrita automática do surrealista André Breton, e esta força é sempre surpreendente.

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Eu escolheria todo o ciclo de quadrinhos nos quais eles aparecem, o conjunto de HQS com eles.

Em 2016 foi publicado pelo Klebs o álbum “Pátria Armada: Visões de Guerra” e eu tive o privilégio de ser um dos convidados, minha HQ  “NOSSOS DIAS” mostra um atentado terrorista que explode a estação de metrô da Praça da Sé  em São Paulo, e nesta HQ ambos personagens (poeta dos Paradoxos e Tyli Tyli)  aparecem em um cartaz de “PROCURADOS”, na minha cronologia a HQ ocorre depois de “BRIZABEL MEU AMOR” e antes de “O JULGAMENTO DE TYLI TYLI”.

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Aqui a foto minha com a colorização manual a Lápis de cor aquarelado para ter uma ideia da escala e tamanho dos meus originais.

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O Poeta também aparece em um pôster na casa do Beto no álbum “GUERRA DOS GOLFINHOS”.

E o Poeta e Tyli Tyli estrelam cada um uma HQ no álbum “GUERRA DAS IDÉIAS”; ou seja, permeiam diversas obras minhas.

Assim sendo o ciclo deste casal abrange boa parte de minhas obras e da coerência interna do meu universo narrativo.

“GUERRA DAS IDEIAS” mostra o passado e a evolução das ideologias autoritárias e repressoras contrapondo-se as ideologias da liberdade e democracia, enquanto que “GUERRA DOS GOLFINHOS” é uma utopia pessoal de um futuro indeterminado (ano 85 de outro calendário), ambos tratam do meu tema central que é a liberdade para buscar sua própria felicidade. Este é o tema de TODAS as minhas obras, seja poesia, conto, histórias em quadrinhos ou pesquisa científica de subliminares, pois esta tecnologia fere o livre arbítrio e é o oposto de tudo que acredito, inclusive a propaganda subliminar é um arma de GUERRA PSICOLÓGICA ou PSY–OPS de BLACK-OPS.

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Desenho Online – Sei que possui muitas capacitações. Isso se deu por uma natural busca pelo saber, foi mais um meio de alcançar determinados objetivos, ou as duas coisas?

Calazans – Minha família toda gosta muito de ler e aprender coisas novas, cresci em um ambiente de leitores com tias e até minha mãe professoras; viemos ao Brasil na época colonial, o ancestral mais antigo veio de Coimbra, formado bacharel em Direito e nomeado como NOTÁRIO ou escrevente de cartório em ITANHAÉM, que foi a segunda vila do Brasil fundada em 1532, nesta cidade ajudamos a construir a primeira biblioteca pública da América do Sul, o “GABINETE DE LEITURA” , e foi da história oral e escrita da minha família que desenvolvi a HQ “A HORA DA HORTA” no formato retangular deitado como a tela do computador e em duas versões, uma adulta e outra infanto-juvenil na qual as índias tem a nudez coberta pelos balões de fala.

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Inclusive eu colori a pele dos indios com uma tinta misturada de ecoline com a semente de URUCUM que era o corante que eles usavam mesmo, eu inventei a mistura especialmente para esta HQ.

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Sou formado como tradutor-intérprete juramentado, bacharel em Direito e Bachare, em Comunicação, tenho pós graduação, sou mestre e DOUTOR pela ECA USP e Livre-Docente (Pós-Doutor) pela UNESP.

Também sou Perito Judicial em processos de DEFESA DE DIREITOS DO CONSUMIDOR.

 

Desenho Online – Porque você defende tanto o uso de história em quadrinhos em espaços educativos?

Calazans – Outros pesquisadores na Europa e USA provaram que a mídia QUADRINHOS tem ZERO por cento de rejeição pelos estudantes, então funciona muito bem como apoio didático, então ofereci por meio da UNESP à rede estadual cursos de emprego de quadrinhos em sala de aula, as professoras eram dispensadas no dia do curso e por meses eu ensinava e acompanhava experimentos delas em alfabetização e ensino de literatura, ciências, história e geografia, etc..

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Do resultado obtido acompanhando estas professoras em tres anos consecutivos com professoras diferentes a cada ano escrevi o livro “Histórias em Quadrinhos na Escola” – que está na TERCEIRA edição, pela editora PAULUS São Paulo, ISBN 85-349-2140-7 . PRIMEIRO livro do Brasil sobre o uso de quadrinhos para ensino em escolas, primeira edição foi publicada em 2005.

 

Desenho Online – Em quais artistas você se inspira, quais são suas influências?

Calazans – Fui alfabetizado com os álbuns franco-belgas ASTERIX e TINTIN, assim eles me influenciaram muito, de técnicas narrativas a desenho; muito menino ainda eu conheci a revista “GRILO” que publicava Wolinski, Reiser, CRUMB, Richard Corben, Crepax e muitos outros, eu desenhava copiando as mulheres de Corben e Crepax e isto influenciou meu traço certamente, também copiava as formas femininas “mignon” de DANY cujas mulheres parecem aquelas francesinhas como Brigitte Bardot.

Por outro lado os temas e argumentos que me comovem e encantam são os de CAZA, junto às belas hachuras de MOEBIUS, PICHARD, CRUMB e BARRY SMITH, e a política e crítica social em narrativas sem concessões ao leitor de um BILAL; as cores delicadas e suaves de VON BODÉ, a autocrítica de BUZZELLI, o humor negro de FEIFFER, os enquadramentos e narrativa de WILL EISNER, a ironia de ALL CAP e inúmeros outros!

Dos brasileiros tem um que eu sempre invejei o traço e a pesquisa visual de vestuário e arquitetura, Nico Rosso, com os roteiros de Rubens F. Lucchetti, invejo também o personagem “FIKON” de Fernando Ikoma pela EDREL, invejo o “PABEYMA” de Paulo Fukue também pela Edrel, se escrevesse todos faria uma lista telefônica: J. Carlos, Belmonte, Flavio Colin, Cesar Lobo, Mauricio de Souza (o tiranossauro vegano “Horácio”) , Laudo e Omar, etc..

 

Desenho Online – Em uma entrevista concedida ao Jô, em 2004, você disse que passou 20 anos da sua vida tentando provar que a mensagem subliminar não existe, e que culminou no livro “Propaganda Subliminar Multimídia” de sua autoria, onde acabou provando justamente o contrário. Mas na sua opinião, quais são os maiores perigos das mensagens subliminares?

Calazans – Dizem que a ciência é ISENTA de intenções éticas ou políticas e dizem o mesmo do jornalismo, mas isto é MENTIRA, a tecnologia subliminar é o maior exemplo, pois ela VIOLA o princípio do livre-arbítrio e com isto TODO contrato de compra e venda, até de um refrigerante ou balinha doce, é NULO por vício da vontade, é um conceito jurídico.

Estas tecnologias subliminares são proibidas por lei na União européia e nos USA, aqui no Brasil eu propus que fossem aplicados alguns artigos do CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR (artigo 36) e do CÓDIGO DE ÉTICA DA PUBLICIDADE (artigo 22) proibindo tecnologias subliminares. Sou perito judicial em casos como o anúncio de TV da SOUZA CRUZ e outros que versam sobre esta tecnologia, atuo para o Ministério público CONTRA as multinacionais que usam estas tecnologias.

Meu livro “Propaganda subliminar multimídia” da Summus Editorial está em SÉTIMA edição e o livro “História em quadrinhos na escola” pela Paulus está em terceira ou quarta edição! É um prazer saber que tem ainda quem goste do que eu escrevo e desenho.

Além da questão ética e jurídica, ainda por cima também existe um risco à SAÚDE PÚBLICA como foi o caso de epilepsia em massa no Japão do POKÉMON, aquele pica pisca é a tecnologia subliminar, explico no meu site em detalhes.

Aqui o link da minha entrevista ao Jô Soares.

 

Desenho Online – Se fosse para resumir Calazans em apenas três palavras, o que diria?

Calazans – Diria “eu não sei”.

Talvez o sentido da vida seja o auto-conhecimento, descobrir em si próprio o mistério de tudo, do ponto de vista humano, do homem como medida de todas as coisas. Sócrates (o grego da Filosofia) dizia:- “só sei que nada sei”.

Admiro o budismo jaina da Índia com seus 24 Budas, os Terthankaras, como disse um buda de uma outra tradição mais recente, o Sidarta Gautama, os homens sofrem por desejar, então busco ser feliz com o que tenho aqui e agora. Não tenho um desejo neste momento pois só desejo continuar respondendo estas perguntas instigantes que você me enviou.

Como o poeta indiano KABIR ensinou! -Você é uma onda no mar, cresce, chega ao auge, decai e morre na praia, compara-se com as outras ondas, vaidoso, orgulhoso de sua individualidade, mas se olhasse para baixo veria que você e as outras ondas são frações de segundo ilusórias do mesmo oceano, a mesma água! Não importam as bolhinhas da espuma de seus pensamentos e memórias, tudo maya e leela, ilusão maya e brincadeira leela, sorria como Hontai, aquele gordinho sentado, o buda sorridente nipônico!

Jesus Cristo crucificado entre dois ladrões – um pergunta do passado dele e seus milagres, é “a mente do preterito imperfeito” com seus remorsos, o outro ladrão pergunta do futuro no céu, é “a mente do futuro-mais-que-perfeito”; ambos ladrões tentam roubar a mente do aqui agora, do gerúndio, de viver este momento do agora aqui neste lugar.

E aqui e agora eu sou o respondedor de suas perguntas, Mateus Machado, e nada mais!

Flavio Calazans ou Calazans é um personagem que eu criei quando fui eleito orador da classe na formatura de primeiro grau, eu escrevia bem mas sempre fui muito tímido então montei esta “persona” – máscara ou personagem – a qual uso para me comunicar e falar em público para estranhos. Do Flávio Mário de Alcântara Calazans da vida real pergunte a minhas ex –namoradas e à minha esposa Ivany Sevarolli, pois só as mulheres conhecem mesmo um homem!

 

Desenho Online – Que conselho você poderia deixar para nossos seguidores desenhistas?

Calazans – Quem deseja fazer quadrinhos que antes tenha uma fonte de renda fixa e mensal, eu fiz concurso e sou funcionário público, recomendo esta carreira de serviço público pois no Brasil é estável.

Quadrinho sempre vai ser um bico ou um hobbie feito por prazer (quem vive SOMENTE de quadrinhos no Brasil além de Mauricio de Souza? Digo viver pagando aluguel, comprando comida, se vestindo, pagando plano de saúde, escola dos filhos, dentista, etc.. somente com dinheiro ganho por quadrinhos – se leciona cursos de quadrinhos não vale pois então é professor!).

 

Desenho Online – Muito obrigado por nos conceder essa entrevista!

Calazans – Antes de tudo eu é que tenho de te agradecer, Mateus, por esta entrevista instigante, provocativa e inteligente, a qual deu-me tanto prazer em responder que parei tudo em que estava envolvido, até a apresentação em “power point” de um projeto de “ENSINO A DISTÂNCIA” para o qual fui convidado a participar e uma caricatura encomendada do autor de um livro cujo prazo está acabando.

Em segundo lugar quero convidar a quem está lendo a colocar no google “Calazans zans zans” e visitar alguns posts do meu blog, e se gostou de algo nesta entrevista ou no blog convido a ler meus livros e meus quadrinhos e enviar comentários que me ajudem a melhorar minha escrita e minha narrativa e estilo de quadrinhos, muito obrigado!

Desculpe-me por ter sido excessivamente verborrágico e loquaz – Como escreveu Blaise Pascal: “Desculpe-me tê-lo cansado com uma carta tão longa, mas não tinha tempo para escrever-lhe uma carta breve”. (Já vi no google esta frase atribuída a Padre Vieira e já li o mesmo conceito aplicado como autoria a DESCARTES: “Desculpe a carta longa, escreveria outra, menor, se tivesse tempo”).

“Fiz esta carta mais longa porque não tive tempo de fazê-la curta.” (Blaise Pascal)

“Escrevo-vos uma longa carta porque não tenho tempo de a escrever breve.” (Voltaire).

 

2 comentários sobre “Flávio Calazans em entrevista exclusiva ao blog desenhoonline.com

  1. Matheus trabalho com Pintura facial em festas infantis. Porém nunca fiz curso de desenho. Qual você me indica para melhorar a qualidade do meu serviço?

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